3/27/2007

Parangolés Urbanas

Tomando emprestadas as “parangolés” de Hélio Oiticica, ícone das artes plásticas que buscou integrar a arte na experiência cotidiana, encontro panos e tendas que pedem a participação corporal integral do espectador. Nas instalações, que sugerem um movimento de quase dança na interação, penso na imagem simbólica de casulos, onde o potencial criativo e o autoconhecimento são intensamente explorados, numa tentativa de extinguir o amedrontamento que o olhar interno provoca ao descortinar nossos medos.
Ao mesmo tempo, o Dicionário Aurélio me conta que a palavra Parangolé significa “conversa fiada” na gíria carioca, trazendo imagens do engodo diário à que somos submetidos constantemente nas relações com a figura do “outro”.
O outro nos intimida na medida em que o nosso olhar cotidiano insiste em passar pela desconfiança e pela falta de perspectiva desses tempos inseguros que vivemos. Nesse contexto assumimos uma postura defensiva, e nos fechamos, dificultando ainda mais o contato e a proximidade, impotentes diante da constatação de que nossa relação com o ambiente próximo e seus atores torna-se progressivamente debilitada.
Podemos ceder a falsa segurança desses temores e multiplicar situações onde a pré-disposição para agredir impera. Como observo noutro dia quando, na fila do banco, a correntista e a moça do caixa, em discussão acalorada, versavam aos berros, sobre o direito que a senhora tinha de ser atendida e o dever da bancária em atender outras demandas enquanto a fila crescia.
Não cabe aqui advogar sobre a legitimidade dos argumentos, no entanto, chama atenção a maneira defendê-los. O quadro é pintado, quem sabe, com cores da reação automática de quem já ouviu muita conversa fiada de um lado, e do outro com pinceladas de descaso e impaciência de quem percebe o sonho das vitórias profissionais convertido em dias cinzentos e desbotados.
Cobertos de razão, sob a ótica de nossas batalhas particulares, esquecemos que esses eventos podem conter ingredientes de humanidade que talvez não resolvam, mas minimizam os ferimentos emocionais da pintura desagradável que admiramos. Para isso, cabe a cada um, no contraponto entre os significantes da parangolé, exercitar reações com mais sorrisos, mais compreensão e, quem sabe, mais fé no potencial que o outro tem, assim como nós, de superar a distância entre arte e vida.

Um comentário:

Anônimo disse...

A conversa fiada é exercida em alguns casos para amenizar situações de desgastes e tensão intensos. Acredito que muitos de nós temos a capacidade de dicernir o que é parangolé, do que é engodo, para que tenhamos disconfiança das pessoas.
Devemos nos posicionar para o dia a dia, de maneira mais alegre, espertamente, mais sem as tais segundas intenções. Para que possamos realmente exercer e exercitar as tais reações com mas sorrisos, compreensão, estar mais aberto/a para absorver o potencial que o outro tem, e de que maneira suaviza suas emoções violentas.
Boa Tarde.