3/04/2009

Capricho dos Deuses

Mudança de governo. Gente nova, novas propostas de trabalho, novos desafios. Descubro apavorada que já completei nove anos de serviço público e, pasmem, sou uma das mais novas do pedaço em tempo de casa.

O susto de uma transição que eu não havia assistido anteriormente, aos poucos vai cedendo espaço para uma expectativa de redesenho de funções, de valorização de competências e de novos rumos para o antigo agir dos dias lamentavelmente sem perspectivas, do carimbo de gado estatutário, da acomodação tão sintomática daqueles que se contentam com as mesmices que a vida dá.

Quem chega sorri, ávido por encontrar seu devido lugar na ordem das coisas, em qualquer escalão que focalizemos. Alguns sorrisos decentes, de gente que se reconhece e me reconhece gente. Outros, sorrisos tímidos de quem ainda está sentindo para onde apontam as marés e os humores. Há ainda os sorrisos deslumbrados, dos que se encantam com a sedução do jogo fácil, da soberba em verificar, encantados, que sua nomeação produz olhares de espelho, onde só percebem beleza, sabedoria, gentileza e luz... artificial.

Quem recebe também é só sorrisos. Sorrisos de quem tece sonhos na mudança, sorrisos que se somam na ousadia do fazer diferente, sorrisos cautelosos dos gatos escaldados que não mais depositam sua confiança em ninguém. Há até os sorrisos amarelos, dos que se sentem usurpados de saberes e poderes que, de fato, nunca tiveram. E os esgares dos que não se colocam, não se manifestam, não se atrevem a “ser”.

Em função de sorridentes desacatos, percebo um ruído no entorno, um estranhamento inédito, muito diferente (será?) dos capítulos já assistidos na novela dos governos e desgovernos que um país democrático pressupõe. Que espaço é esse, que desnuda o pior dos prazeres, o delírio da presunção? Que rascunho de relação humana permite que nos apeguemos a ninharias simbólicas, que impedem tudo que diga respeito a crescimento, trabalho, continuidade e parceria?

Assisto, horrorizada, a pequenas e grandes afrontas diárias e, por vezes, sinto que todo o discurso, principalmente dos "moradores permanentes", falha quando percebo que as melhores intenções se desfazem na omissão de informações, na falta de transparência, no diz-que-me-disse fútil das astúcias políticas e das mágoas rançosas.

Parecem deuses caprichosos num embate sem ganhadores, onde quem perde de fato é aquilo de bom que podemos produzir. Deuses apegados demais à pequenez de poderes, que antes de trazerem glória, produzem grilhões que impedem os vôos verdadeiramente elegantes de quem sabe que não tem nada a perder, porque nada é nosso. Vôos tranqüilos, de quem se sustenta na capacidade de superar, todo dia, o que podemos ser de melhor.

3 comentários:

Anônimo disse...

Minha deusa pagã preferida!

Graça, Paz e Bem!
Que bom ler você e perceber que os seus olhos lindos e fortes não perderam o brilho.
Um beijo!
Saudades.
Na Jornada,

Levi Arapujo

Anônimo disse...

Queridíssima Sandra Monice, que bom ler seus textos! Você está sempre melhor a cada nova contribuição léxica. Gosto bastante de teu estilo e acho que você está a caminho de ser uma escritora clássica e potente, tipo "Clarice Lispector"
Viva longa e próspera ao Blog e a ti.
Abraços.
Mané

Anônimo disse...

Belo texto, só agora vi. Creio que o sentimento já deva ter mudado, mas como toda produção literária é um flash na história de nossas vidas, esse seu registro foi ótimo, parabéns! O Barnabé carimbado.